10 de junho de 2026

O embargo de Trump a Cuba e a barbárie normalizada, por Gustavo Tapioca

Sufocar uma nação inteira até que o colapso social produza aquilo que a pressão diplomática e militar nunca conseguiu impor. 
Reprodução - Photo by YAMIL LAGE / AFP

O colapso da rede elétrica em Cuba é resultado do endurecimento do embargo dos EUA, especialmente na área energética.
Desde 1962, o embargo visa enfraquecer Cuba por meio da escassez econômica, agravado recentemente pela falta de petróleo.
Apesar de condenação global, o embargo persiste, causando sofrimento à população e normalizando a crise humanitária na ilha.

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O embargo de Trump a Cuba e a barbárie normalizada 

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O colapso do sistema elétrico da ilha revela o resultado de uma política deliberada de asfixia econômica que, há mais de seis décadas, transforma milhões de civis em reféns de uma estratégia de poder 

por Gustavo Tapioca

A ilha no escuro 

Cuba apagou. 

Não apenas as luzes de suas cidades, ruas e casas. Apagou o sistema elétrico de um país inteiro. 

O colapso da rede de energia que mergulhou a ilha na escuridão não é um acidente técnico. Não é uma falha de infraestrutura. É o resultado previsível de uma política deliberada de asfixia econômica que se arrasta há mais de seis décadas — e que, nos últimos meses, foi levada a um novo patamar pelo endurecimento do embargo imposto pelos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. 

Sem combustível, as usinas param. 
Sem energia, hospitais entram em emergência. 
Sem eletricidade, sistemas de água deixam de funcionar. 
Sem transporte, alimentos não chegam. 

O apagão nacional não é apenas uma crise energética. 

É a tradução concreta de uma estratégia geopolítica. 

Sufocar uma nação inteira até que o colapso social produza aquilo que a pressão diplomática e militar nunca conseguiu impor. 

O bloqueio energético como arma 

O embargo contra Cuba começou em 1962, em plena Guerra Fria. 

Desde então, tornou-se o mais longo regime de sanções da história contemporânea. Ano após ano, a Assembleia Geral da ONU condena essa política com maioria esmagadora. Ano após ano, Washington ignora o mundo. 

O que mudou agora foi o grau de intensidade. 

O bloqueio deixou de ser apenas econômico. 

Passou a ser energético. 

A interrupção do fornecimento de petróleo — especialmente aquele que vinha da Venezuela — empurrou a ilha para o limite do colapso. Sem combustível, as usinas deixam de operar. Sem eletricidade, a economia entra em estado de falência funcional. 

Energia não é um setor. 

É a base de todos os setores. 

Quando ela desaparece, desaparece a normalidade da vida. 

Hospitais colapsam. 
Água deixa de chegar. 
Alimentos se perdem. 
Cidades param. 

Uma guerra sem bombas 

Nenhum míssil foi disparado. 

Nenhum tanque cruzou o mar do Caribe em direção a Cuba. 

Mas há guerras que não aparecem nos mapas militares. 

Bloqueios econômicos prolongados corroem sociedades lentamente. Desorganizam sistemas produtivos, comprometem serviços essenciais e transformam a vida cotidiana em uma sequência contínua de privações. 

É uma guerra silenciosa. 

Uma guerra que não se anuncia, mas se impõe. 

E cujo campo de batalha não é o território — é a vida civil. 

O método: produzir escassez, provocar colapso 

Não é preciso recorrer à interpretação para entender a lógica dessa política. 

Ela está documentada. 

Em abril de 1960, um memorando do Departamento de Estado dos Estados Unidos — redigido pelo então subsecretário Lester Mallory — estabelecia com clareza o objetivo da política para Cuba: 

“A única forma previsível de alienar o apoio interno ao governo é por meio do desencanto e da insatisfação decorrentes de dificuldades econômicas… deve-se usar todos os meios possíveis para enfraquecer a vida econômica de Cuba… provocar fome, desespero e a derrubada do governo.” 

Mais de seis décadas depois, a lógica permanece intacta. 

O método é o mesmo. 

A escala é maior. 

A responsabilidade política de Trump 

O endurecimento recente dessa política tem autoria. 

Ele está diretamente ligado às decisões tomadas em Washington sob a liderança de Donald Trump. 

Nos últimos anos, os Estados Unidos ampliaram sanções, reforçaram restrições financeiras e intensificaram a pressão sobre qualquer país ou empresa disposta a negociar com Cuba. 

O golpe decisivo veio no setor energético. 

A interrupção do fluxo de petróleo agravou de forma dramática a crise da ilha. 

Sem combustível, as usinas param. 
Sem energia, a vida cotidiana entra em colapso. 

O impacto não recai sobre dirigentes. 

Recai sobre a população. 

Famílias que não conseguem conservar alimentos. 
Hospitais que operam no limite. 
Cidades submetidas a apagões prolongados. 

A política externa, aqui, abandona qualquer abstração diplomática. 

Ela se materializa no sofrimento concreto. 

A história julga. 

E julga pelos efeitos. 

Cuba não precisa ser anexada para ser dominada 

Diante do aprofundamento da crise, surge uma pergunta inevitável: os Estados Unidos querem transformar Cuba em um novo Porto Rico? 

A resposta é não. 

Mas isso não torna a situação menos grave. 

Cuba não precisa ser anexada para ser dominada. 

O poder contemporâneo não depende mais, necessariamente, da ocupação territorial direta. Ele opera por outros meios: dependência econômica, pressão financeira, controle energético. 

O estrangulamento prolongado pode produzir aquilo que a guerra aberta não consegue. 

Uma transformação interna. 

Se essa estratégia for bem-sucedida, o resultado não será a anexação formal. 

Será algo mais profundo. 

Uma Cuba reintegrada à órbita de influência de Washington, economicamente reconfigurada, politicamente alinhada e estruturalmente dependente. 

A pergunta central não é se Cuba será incorporada. 

A pergunta é: 

o que restará de Cuba depois da asfixia? 

O mundo protesta — e é ignorado 

O embargo contra Cuba enfrenta uma rejeição quase universal. 

Há mais de três décadas, a Assembleia Geral da ONU condena essa política com maioria esmagadora. Em 2025, pela 33ª vez consecutiva, 165 países votaram pelo fim do embargo, contra apenas dois votos contrários — os próprios Estados Unidos e Israel. 

Trata-se de um dos consensos diplomáticos mais amplos da história contemporânea. 

Relatores independentes da ONU têm alertado que o endurecimento das sanções aprofundou as dificuldades econômicas e sociais da população cubana, afetando diretamente setores vitais como saúde, alimentação e acesso à energia. A relatora especial Alena Douhan destacou que as medidas atingem de forma desproporcional os mais vulneráveis. 

Organizações internacionais como Amnesty International e Human Rights Watch denunciam há anos os efeitos humanitários do embargo, incluindo restrições ao acesso a medicamentos e tecnologias essenciais. 

Até mesmo o Papa Francisco defendeu o diálogo entre Washington e Havana, alertando que os mais pobres — crianças, idosos e doentes — são os que mais sofrem com o prolongamento desse conflito. 

Apesar disso, a política permanece. 

O mundo protesta. 

Washington ignora. 

O risco maior: a normalização da crueldade 

Talvez o aspecto mais perturbador não seja o embargo em si. 

Mas o fato de que ele se tornou normal. 

Década após década, o sofrimento do povo cubano foi sendo incorporado ao cenário internacional como algo dado. 

Apagões. 
Escassez. 
Crise permanente. 

Como se fosse inevitável. 

Como se fosse natural. 

Esse processo tem nome. 

O filósofo Vladimir Safatle chama de dessensibilização moral. 

Quando a injustiça se repete por tempo suficiente, ela deixa de escandalizar. 

A crueldade se torna rotina. 

E o intolerável passa a ser aceito. 

O limite moral da civilização 

O que acontece hoje em Cuba não é apenas uma crise energética. 

É um teste moral. 

Vivemos em uma era de avanços tecnológicos extraordinários. 

E, ainda assim, aceitamos que uma população inteira seja submetida a décadas de asfixia econômica. 

Talvez, no futuro, a pergunta seja inevitável: 

como o mundo permitiu isso? 

A resposta talvez esteja diante de nós. 

Não apenas na escuridão das cidades cubanas. 

Mas na escuridão moral que se instala quando o sofrimento humano deixa de provocar indignação. 

Porque quando um país inteiro apaga — e o mundo se acostuma — 

não é apenas uma ilha que fica no escuro. 

É a própria consciência da humanidade que começa a se apagar. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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4 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    19 de março de 2026 5:55 am

    “Primeiramente eles vieram buscar 0os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista.

    Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista.

    Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu.

    Foi então que eles vieram me buscar, e já não havia mais ninguém para me defender”. – Martin Niemöller

    Tudo vai bem, tudo normal. E amanhã, Seu Zé, se acabarem com o teu Carnaval?

    Fica para os deslumbrados com os Falcões Galinhas a pergunta do Gonzaguinha.

  2. Rui Ribeiro

    19 de março de 2026 8:52 am

    “Porta-voz de Milei diz que Argentina pode dar apoio militar aos EUA em guerra no Irã caso Trump peça”.

    Os EUA deram apoio militar à Argentina na guerra das Malvinas. A Argentina deve favores aos EUA. Sqn

    1. Moacir Rodrigues de Pontes

      19 de março de 2026 8:55 pm

      Pelo que me lembro, os EUA não deram apoio militar à Argentina na guerra das Malvinas.

  3. Milton

    19 de março de 2026 10:21 am

    Assino embaixo. É a covardia a bandeira da brutalidade. É um gigante esmagando um pequeno por que não pode fazer o mesmo com outro gigante, aí o furo é mais embaixo. A ONU foi feita por e para os países dominadores, ordem no galinheiro. Isso é bem exposto pelo veto unitário, não pela maioria. Vira e mexe e nada muda. Lampedusa vive !

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