O embargo de Trump a Cuba e a barbárie normalizada
O colapso do sistema elétrico da ilha revela o resultado de uma política deliberada de asfixia econômica que, há mais de seis décadas, transforma milhões de civis em reféns de uma estratégia de poder
por Gustavo Tapioca
A ilha no escuro
Cuba apagou.
Não apenas as luzes de suas cidades, ruas e casas. Apagou o sistema elétrico de um país inteiro.
O colapso da rede de energia que mergulhou a ilha na escuridão não é um acidente técnico. Não é uma falha de infraestrutura. É o resultado previsível de uma política deliberada de asfixia econômica que se arrasta há mais de seis décadas — e que, nos últimos meses, foi levada a um novo patamar pelo endurecimento do embargo imposto pelos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump.
Sem combustível, as usinas param.
Sem energia, hospitais entram em emergência.
Sem eletricidade, sistemas de água deixam de funcionar.
Sem transporte, alimentos não chegam.
O apagão nacional não é apenas uma crise energética.
É a tradução concreta de uma estratégia geopolítica.
Sufocar uma nação inteira até que o colapso social produza aquilo que a pressão diplomática e militar nunca conseguiu impor.
O bloqueio energético como arma
O embargo contra Cuba começou em 1962, em plena Guerra Fria.
Desde então, tornou-se o mais longo regime de sanções da história contemporânea. Ano após ano, a Assembleia Geral da ONU condena essa política com maioria esmagadora. Ano após ano, Washington ignora o mundo.
O que mudou agora foi o grau de intensidade.
O bloqueio deixou de ser apenas econômico.
Passou a ser energético.
A interrupção do fornecimento de petróleo — especialmente aquele que vinha da Venezuela — empurrou a ilha para o limite do colapso. Sem combustível, as usinas deixam de operar. Sem eletricidade, a economia entra em estado de falência funcional.
Energia não é um setor.
É a base de todos os setores.
Quando ela desaparece, desaparece a normalidade da vida.
Hospitais colapsam.
Água deixa de chegar.
Alimentos se perdem.
Cidades param.
Uma guerra sem bombas
Nenhum míssil foi disparado.
Nenhum tanque cruzou o mar do Caribe em direção a Cuba.
Mas há guerras que não aparecem nos mapas militares.
Bloqueios econômicos prolongados corroem sociedades lentamente. Desorganizam sistemas produtivos, comprometem serviços essenciais e transformam a vida cotidiana em uma sequência contínua de privações.
É uma guerra silenciosa.
Uma guerra que não se anuncia, mas se impõe.
E cujo campo de batalha não é o território — é a vida civil.
O método: produzir escassez, provocar colapso
Não é preciso recorrer à interpretação para entender a lógica dessa política.
Ela está documentada.
Em abril de 1960, um memorando do Departamento de Estado dos Estados Unidos — redigido pelo então subsecretário Lester Mallory — estabelecia com clareza o objetivo da política para Cuba:
“A única forma previsível de alienar o apoio interno ao governo é por meio do desencanto e da insatisfação decorrentes de dificuldades econômicas… deve-se usar todos os meios possíveis para enfraquecer a vida econômica de Cuba… provocar fome, desespero e a derrubada do governo.”
Mais de seis décadas depois, a lógica permanece intacta.
O método é o mesmo.
A escala é maior.
A responsabilidade política de Trump
O endurecimento recente dessa política tem autoria.
Ele está diretamente ligado às decisões tomadas em Washington sob a liderança de Donald Trump.
Nos últimos anos, os Estados Unidos ampliaram sanções, reforçaram restrições financeiras e intensificaram a pressão sobre qualquer país ou empresa disposta a negociar com Cuba.
O golpe decisivo veio no setor energético.
A interrupção do fluxo de petróleo agravou de forma dramática a crise da ilha.
Sem combustível, as usinas param.
Sem energia, a vida cotidiana entra em colapso.
O impacto não recai sobre dirigentes.
Recai sobre a população.
Famílias que não conseguem conservar alimentos.
Hospitais que operam no limite.
Cidades submetidas a apagões prolongados.
A política externa, aqui, abandona qualquer abstração diplomática.
Ela se materializa no sofrimento concreto.
A história julga.
E julga pelos efeitos.
Cuba não precisa ser anexada para ser dominada
Diante do aprofundamento da crise, surge uma pergunta inevitável: os Estados Unidos querem transformar Cuba em um novo Porto Rico?
A resposta é não.
Mas isso não torna a situação menos grave.
Cuba não precisa ser anexada para ser dominada.
O poder contemporâneo não depende mais, necessariamente, da ocupação territorial direta. Ele opera por outros meios: dependência econômica, pressão financeira, controle energético.
O estrangulamento prolongado pode produzir aquilo que a guerra aberta não consegue.
Uma transformação interna.
Se essa estratégia for bem-sucedida, o resultado não será a anexação formal.
Será algo mais profundo.
Uma Cuba reintegrada à órbita de influência de Washington, economicamente reconfigurada, politicamente alinhada e estruturalmente dependente.
A pergunta central não é se Cuba será incorporada.
A pergunta é:
o que restará de Cuba depois da asfixia?
O mundo protesta — e é ignorado
O embargo contra Cuba enfrenta uma rejeição quase universal.
Há mais de três décadas, a Assembleia Geral da ONU condena essa política com maioria esmagadora. Em 2025, pela 33ª vez consecutiva, 165 países votaram pelo fim do embargo, contra apenas dois votos contrários — os próprios Estados Unidos e Israel.
Trata-se de um dos consensos diplomáticos mais amplos da história contemporânea.
Relatores independentes da ONU têm alertado que o endurecimento das sanções aprofundou as dificuldades econômicas e sociais da população cubana, afetando diretamente setores vitais como saúde, alimentação e acesso à energia. A relatora especial Alena Douhan destacou que as medidas atingem de forma desproporcional os mais vulneráveis.
Organizações internacionais como Amnesty International e Human Rights Watch denunciam há anos os efeitos humanitários do embargo, incluindo restrições ao acesso a medicamentos e tecnologias essenciais.
Até mesmo o Papa Francisco defendeu o diálogo entre Washington e Havana, alertando que os mais pobres — crianças, idosos e doentes — são os que mais sofrem com o prolongamento desse conflito.
Apesar disso, a política permanece.
O mundo protesta.
Washington ignora.
O risco maior: a normalização da crueldade
Talvez o aspecto mais perturbador não seja o embargo em si.
Mas o fato de que ele se tornou normal.
Década após década, o sofrimento do povo cubano foi sendo incorporado ao cenário internacional como algo dado.
Apagões.
Escassez.
Crise permanente.
Como se fosse inevitável.
Como se fosse natural.
Esse processo tem nome.
O filósofo Vladimir Safatle chama de dessensibilização moral.
Quando a injustiça se repete por tempo suficiente, ela deixa de escandalizar.
A crueldade se torna rotina.
E o intolerável passa a ser aceito.
O limite moral da civilização
O que acontece hoje em Cuba não é apenas uma crise energética.
É um teste moral.
Vivemos em uma era de avanços tecnológicos extraordinários.
E, ainda assim, aceitamos que uma população inteira seja submetida a décadas de asfixia econômica.
Talvez, no futuro, a pergunta seja inevitável:
como o mundo permitiu isso?
A resposta talvez esteja diante de nós.
Não apenas na escuridão das cidades cubanas.
Mas na escuridão moral que se instala quando o sofrimento humano deixa de provocar indignação.
Porque quando um país inteiro apaga — e o mundo se acostuma —
não é apenas uma ilha que fica no escuro.
É a própria consciência da humanidade que começa a se apagar.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
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Rui Ribeiro
19 de março de 2026 5:55 am“Primeiramente eles vieram buscar 0os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista.
Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista.
Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu.
Foi então que eles vieram me buscar, e já não havia mais ninguém para me defender”. – Martin Niemöller
Tudo vai bem, tudo normal. E amanhã, Seu Zé, se acabarem com o teu Carnaval?
Fica para os deslumbrados com os Falcões Galinhas a pergunta do Gonzaguinha.
Rui Ribeiro
19 de março de 2026 8:52 am“Porta-voz de Milei diz que Argentina pode dar apoio militar aos EUA em guerra no Irã caso Trump peça”.
Os EUA deram apoio militar à Argentina na guerra das Malvinas. A Argentina deve favores aos EUA. Sqn
Moacir Rodrigues de Pontes
19 de março de 2026 8:55 pmPelo que me lembro, os EUA não deram apoio militar à Argentina na guerra das Malvinas.
Milton
19 de março de 2026 10:21 amAssino embaixo. É a covardia a bandeira da brutalidade. É um gigante esmagando um pequeno por que não pode fazer o mesmo com outro gigante, aí o furo é mais embaixo. A ONU foi feita por e para os países dominadores, ordem no galinheiro. Isso é bem exposto pelo veto unitário, não pela maioria. Vira e mexe e nada muda. Lampedusa vive !